quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

10ª EXPEDIÇÃO A CORDILHEIRA DOS ANDES (2 de 5 partes) - MENDOZA - ARGENTINA

Esse é o diário de viagem da minha 10ª Expedição a Cordilheira dos Andes na Argentina, na província de Mendoza, na data de 09 de janeiro de 2017 a 24 de janeiro de 2017. 
Foi uma expedição exploratória, onde, poderia não ter trilha ou sinalizações de qual o caminho melhor a ser seguido, com diversas dificuldades. Poderia ter surpresas que no google earth ou nas pesquisas na internet não revelam ou poucas pessoas ali estiveram para relatarem detalhes do terreno, clima, etc.
Reservo-me o direito de não transcrever partes onde aparecem nomes ou fatos que poderiam interferir diretamente na vida de pessoas constantes ou não nessa aventura. Ainda, tentarei reproduzir acertando abreviações e fazendo algumas adequações gramaticais para a melhor leitura e interpretação do leitor, bem como explicações atuais entre colchetes [].


Esta é a segunda parte!
Lembro que a primeira parte está em:  http://thomaschulze.blogspot.com.br/2017/02/10-expedicao-cordilheira-dos-andes.html
Boa leitura!

Continuação do dia 11-01-2017, quarta feira.
   15h20min. Verificações! Glicose: 95 mg/dl, normal, mas me sinto fraco. Saturação de oxigênio:  94, com 82 batimentos por minuto. Primeira coisa a fazer: um isotônico reforçado. 6 porções multi grande [multi vitamínico e sais minerais, espécie de shake].
   21h55min. Ainda arrumo coisas. Alimentação está toda classificada. Primeiros socorros, idem. Daqui a 10 minutos vou para o banho [chuveiro] e amanhã serão às 6h com saída às 8h.

























12-01-17 [quinta feira - Saída do refúgio em direção ao acampamento 2, porém parei antes]
   Acordei de madrugada para urinar. Eram umas 4 horas. Acordei novamente as 5h e não consegui dormir. As 6h e fiz numero um claro [urina, de cor clara] e numero dois [eliminação de fezes]. Últimos preparativos. Peso... Medi mas não marquei. Uns 20 kg para as costas e 6 e 10 para as bolsas frontais. 36kg achei aceitável. 7 kg são de alimentação e combustível (presumido).
   8h20min. Estão 15 graus Celsius lá fora.
   Imagem da ponte.
























Imagem dando a volta na montanha.

   10h45min. Estou embaixo do nariz “Del Caballo”. Parei para adequar a barrigueira [parte da mochila ou cinto que prende ela no corpo na cintura, quadril ou barriga]. Lanchar.
   12h22min. Estou com a carga na minha volta. Parei para descansar... Quanto? Não sei. Mastigo uns biscoitos. Vem uma mosca grande me incomodar. Parece uma “mutuca” com olhos enormes. O cerro Santa Elena está na minha frente. Lá... Lá encima... A minha direita, uns 45° tem o pedágio. Avisto um mochileiro. 


Exceto essa mosca, está tudo tranqüilo. Ruídos de motores a diesel, os “clec, clec” dos pneus nas emendas da pista de concreto. 
Penso em deixar algumas coisas no A-4 [4º acampamento. A ordem era ser o acampamento 1 nas ruínas]. Talvez a barraca. Eu tenho um saco para bivaque.
   12h42min. Eu uso a garrafa plástica como travesseiro. Pena que aqui não tem água. Eu poderia passar a noite. Vans sobem para o Cristo [ponto turístico que fica a 3.800 metros de altitude, fronteira com o Chile, no Paso de los Libertadores, antigo, porém usável passagem de veículos leves e pessoas para o outro país].

   O Cristo. Já vi disso. Aí o cara desce da van. E tem um vento que lhe arranca o chapéu. Mas o vento com areia te cega. Sim. É um lugar muito bonito se souber usufruir. [eu gostei. Fiquei 14 dias ali em fevereiro de 2006...] Em Mendoza deve estar uns 30 graus Celsius, no Cristo uns 15 a 20 graus Celsius.
   13h45min. Acho que vou indo devarinho, com saída as 13horas, aproximadamente. Como é bom essa papinhas de crianças, não vejo a hora da próxima parada longa... [uma parte da alimentação era aqueles mingaus de criança de 1 ano aproximadamente, pela fácil digestão e cheio de micro nutrientes].  Só uma coisa: manter o foco, não tropeçar, essas coisas. As 13h45min, eu encontrei um córrego. Tomei o restante, 200 ml, de uma garrafa e me deu vontade de urinar. Urina amarelada. Logo vou parar para beber. [beber mais quantidade]. Se não daqui a pouco = dor de cabeça. Medi o vento. Vento de 17 km/h com rajada de 31km/h.
   14h 33min, agora. Pego a mochila de ataque e vou para a cargueira. Na minha frente o túnel. Na verdade aquelas casinhas. [umas construções retangulares de concreto que fica do lado oeste do rio].

Abaixo, a caminho do acampamento, olhando para norte.



 Avisto o cerro Matienzo.


   14h 45min. Tomo um Shake com 400ml de água e 3 biscoitos. Descanso um pouco. Ainda tem uma mosca. Acho que é pela calça de cor preta.
   19h 30min. Não sei ao certo [não sei o certo o horário], devo ter chegado perto do meu limite. Montei a barraca e me joguei dentro. Procurei um carboidrato gel e consumi com água, 200 ml. Fiquei um pouco melhor. Água? Só a barrenta do rio. Usei filtro de café, pouco adiantou. Tratei-a. Agora está decantando até amanhã. Janta: alho e cebola frita no óleo da sardinha [sardinha em lata] mais água, enriquecido com farelo de biscoito salgado e, é claro, as sardinhas. Umas horas atrás, eu percebi algo errado quando não conseguia uma multiplicação simples. Por cima deu 800 kcal por hora. Não consigo me lembrar da hora de saída. Parecia ser 9 horas. Até as 18h. Mais ou menos 9 horas. De 5.400 a 7.000 kcal. Não sei. Estou com vontade de dormir somente com o liner e o saco de bivaque. [o liner é no formato do saco de dormir, mas somente o tecido, nylon ou poliéster. O meu tem duas camadas. O de fora é de nylon liso e o de dentro é de fio penteado, macio ao toque]. Dentro da barraca, o saco de dormir está perfeitamente acomodado dentro da mochila. Terminei a janta com chá de guaco. Usei uns 50 ml de álcool anidro. Achei forte. Estou poupando as baterias. Vou ter que reorganizar as coisas. Quanto de temperatura dará aqui? Deve ser uns +10º C.
   20h 32min. +18ºC. Aqui, qualquer coisa é travesseiro! Roupas extras e um rolo de ph [papel higiênico]. Minha lanterna de cabeça está acendendo sozinha. É a terceira vez. Dentro da bagagem, dentro do saco de transporte e dentro do bolso. Tirar as pilhas? Só que tem uma vedação especial... Se eu tirar... Penso no cronograma.
   20h 43min. Pensei no cronograma. Farei por etapas. Primeiro até o pé do portezuelo [Del norte]. Se estiver ruim, deixarei a barraca e outras coisas que não sei. Vou tentar dormir. Tem um barulho constante... Do rio Cuevas? [Sim!].
   Fui dormir as 21 horas.

13-01-2017 [Sexta feira]
   Acordei a uma e meia e, não consegui mais dormir. Às seis horas dormi, mas acordei as sete. Agora são 07h 18min. Urinei amarelo claro. A cebola está saindo meio gasoso. De madrugada chegou a +10ºC e de calça de caminhada, camiseta manga longa, colete [térmico, de fibra de poliéster], gorro [também de meias], com o liner e o saco de bivaque, foi confortável. Usei a parca. Todo vestido daria para agüentar +10ºC. Bebi água decantada. Não vai dar para agüentar o gosto!
   07h 25min. Que fome! Faço imagens de quebrada (vale) de Matienzo.



   07h 48min. Uns minutos atrás estava +6ºC lá fora. Tomei 300 ml de “vitamina” de cereais com alguns biscoitos de ontem.  O sol ilumina as pontas das montanhas a oeste. Previsão de saída as nove horas. Aqui ....m de altitude. Um saco de dormir com conforto de 0º a 5º positivos estaria bom. Previsão de percurso 12 horas. De 12 a 15 km. Previsão de chegada ao portezuelo: hoje mais dois dias. Quarenta a cinqüenta quilômetros do objetivo ou metade do percurso de aproximadamente 2.550 km [total de minha casa ao cerro Zumbringgen].
   08h 15min. Medi minha oxigenação. O aparelho tem um gráfico e este estava descompassado. Usei meu estetoscópio e percebi algumas alterações. Pode ser pela escassez de glicogênio [momentâneo], como o frio da noite. Mas vou monitorar. Tenho medicação para o coração [esse deveria ser tomado somente em caso de infarte]. O transporte será por meio de “porteo” (espanhol). Levo um volume a 100 passos [duplos] que devem ser uns 140 a 150 metros e largo [no chão]. Volto e pego o outro, trago para esse ponto e levo para frente deste ponto, uns 150 metros. Volto, pego o anterior e largo a frente desse, e assim por diante. Isso tudo para não sobrecarregar a musculatura, conseqüentemente a pressão sanguínea (e supostamente o coração).
   16h 24min. [Em um córrego peguei uma água]. Atravessei o rio do cerro Pedro Zani, três vezes. Molhei as botas, meias e pés. Na última água... Que fiz uma filmagem... Encontrei três larvas em um litro e meio de água. Joguei fora. 

Mais uma pegada [mais uma vez colhendo água na garrafa] 2 larvas. Contava com aquela água! A Natureza que me perdoe, mas preciso fazer um filtro de água urgente! Encontrei umas raízes no caminho, meio queimadas, em um círculo de pedras. [Lá no riacho, usei minha camiseta como filtro mecânico. Verifiquei a água e não tinha larvas. Usei o álcool para queimar a raiz e fazer carvão. Moí esse carvão e coloquei no meu filtro para café. Então que a água passou por esse processo, coloquei o produto químico.]
   20h 15min. Consegui me hidratar. Sopa de cebola com biscoito. Agora está cerca de +12ºC. Parece quente. Estou bivacando de verdade. Aguardo a sopa esfriar. Parei às 19h 30min, aproximadamente. Saturação de oxigênio 90 com 92 bpm [batimentos por minuto]. Gráfico... Ok! Devo ter saído as nove horas e cinqüenta minutos. Devo ter feito os 10 km que eu queria. Tentei levar toda a carga, mas doeu um rim. Voltei para o porteo.

     Revisando... [a revisão dos dias não será transcrita pois resultou em confusão na leitura].

14-01-2017 [acordei no acampamento depois do zanni.]
   08h 00min. Faz 6ºC. Estou ao ar livre. Está muito frio para escrever. Noite complicada. Mexi-me [dormindo] e o zíper do saco de dormir abriu e eu não consegui fechá-lo. Coloquei o liner e o colete na fresta.  Fazia +10ºC. Condensou um pouco a umidade da respiração dentro do saco de bivaque. Na próxima em de Goretex [de Goretex ou similar, é um tecido transpirável para os vapores de água e impermeável para a chuva]. Não consigo escrever, os dedos estão levemente amortecidos [frio]. Urinei amarelo claro. Bebi suco de limão sem corante.
   Tive três períodos de sono. Em um deles sonhei que havia tropeçado nas minhas coisas. Tentei gritar, mas a voz não saía. Mais tarde, no sonho, apareceu um casal. Eles estavam aclimatando para ir ao acampamento base do Everest [montanha] que coisa... “Porque você está aqui fora?” Perguntaram-me. “Porque você não vai para a casa?” Casa? Que casa? [eu indaguei – no sonho] Uns 100 metros para cima! Fui dormir lá, mas quando acordei estava fora da casa perto de uns trilhos de trem. Um pequeno trem passou por cima da ponta do saco de bivaque. Tentei puxar desesperadamente. Parecia real. Acordei. Passei alguns segundos de confusão mental. Agora +4ºC, escrevo mais tarde.
   08h 30min. Não sei se dormi. Sei que estava quente. O termômetro marca +8ºC, mas o sol está de “rachar”. Preciso defecar hoje, pois ontem deu vontade.  Carrego sempre comigo sacola plástica e papel higiênico. Dormi com uma pedra na altura do joelho esquerdo. Espero não ter o lesionado. [Essa foi umas que não consegui tirar do chão.]
[A barraca, o pote das fezes e alimentação para a volta deixei neste acampamento, atrás de uma pedra grande e debaixo de uma pilha de pedras]   
   Alarme falso para numero dois! Continuo arrumando os materiais.  Alarme verdadeiro! Mas aonde? Atrás da pedra mesmo! Ufa! Meio quilograma a menos para carregar. Lavo as mãos com álcool.
  08h 45min. Fiz chá.
  11h 40min. 95% pronto! Apesar de ter tomado “café da manhã”, me sinto fraco. Arrumar a mochila cansa. Vou almoçar. Próxima prioridade é água, pois só tenho um litro de água. Lembrar dos runners.
[Quando eu arrumava os equipamentos, avistei uma pessoa. Ele estava com capacete de bicicleta, porém sem a mesma. Logo depois veio seu companheiro com a bicicleta. Eles estavam fazendo um trail até a laguna escondida. Não sei como nem aonde cruzaram o rio Cuevas. Ida e volta do vilarejo Las Cuevas. Quando eu estava voltando para pegar a segunda carga, eles estavam retornando. Percebi as calças colantes molhadas.]
  11h 49min. Depois de 300 kcal, me sinto bem melhor. Deverei sair às 12h 00min para “portear”. Deixarei a barraca, varetas, shit pot e lixos até então.

Imagens do caminho para o próximo acampamento. Na frente é oeste e a direita é norte.

  Imagens do caminho para o próximo acampamento, descansando ao lado de uma pedra. Na direita é leste e a esquerda mais ou menos noroeste.



   15h 25min. Minha primeira hemorragia nasal! [Ar seco e assuar muito o nariz dá nisso.] Em vez das mutucas irem para as gotas de sangue continuam me rondando. Estou a uns 300 metros de onde escalei o ano passado.

[Olhei para sul e reconheci uma montanha - Cerro Santa Elena - que subi por duas vezes, em fevereiro de 2.006, parando e, bem perto do cume, voltei pois estava tarde da primeira vez e na segunda por encontrar uma patrulha do Exercito Argentino onde o enfermeiro me convenceu a voltar. Distância aproximada: 10 km em linha reta.]


[Modificando o cardápio.]
 [Fiz uma parada mais longa para comer uma sopa, onde encontrei lenha. Após a refeição, organizei as madeiras, recolhendo e empilhando-as]


  [Encontrei um grupo de vacas. Bem próximo a trilha tinha um bezerro, muito irritado. Juntei umas 3 pedras no chão e coloquei no bolso. Iria usar isso em último caso. O apito estava sempre a mão. Acredito que apitando e gesticulando eu conseguiria espantar um animal desses.]
    20h 44min. [Caminhei bastante. Passei por umas paisagens que reconheci quando passei por aqui no ano de 2006, indo visitar o monumento do Tenente Benjamin Matienzo. Mas... Um grupo de cavalos espalhados não me deixou passar. Alguns mais centralizados e alguns nas extremidades “rosnavam” para mim.]

[Tive que desviar da trilha para a esquerda ou oeste. Subindo uma elevação onde encontrei um buraco e uma estrutura metálica.]
   Estou em uma elevação a oeste da trilha. Eu diria “terra de ninguém”. Achava que estava protegido por uma grande pedra mas o vento mudou. Faz +7ºC. Irei dormir com luvas. O desvio dos cavalas foi exaustivo. Não passei do “arranhado”. [Paisagem que parece um arranhado na montanha a leste deste ponto. Depois do “arranhado” encontra-se o monumento e as ruínas de um abrigo de mineradores]. Nuvens a 10 km [para sul] em cima do cerro santa Elena me assustam. Vou dormir até quando não for possível. Cavalos relincham. Saturação de O² 93, bpm cardíaco 93. Sinto-me como estivesse a 3.600 [na realidade 3.458m de altitude, aproximadamente]. Estou com uma cãibra no pescoço e na cintura lombar do lado direito. Impossível escrever!

15-01-2017 Domingo
   Meu sono foi em 4 etapas. Todas com sonhos. Temperatura mínima que consegui registrar foi de +6ºC. Passei um pouco de calor. Tive umas cãibras nas costas.
   08h 00min. Saí correndo para numero dois. Dei alguns passos apenas. Tudo ensacado. Urina amarela clara. Consumi 500ml de liquido.
   08h 30min. Faço uma assepsia nos pés. Passo uma pomada para micose, apesar de não ter indícios disso. Agora 75% organizado. Moscas vêm me visitar. Um pássaro também. A lua estava um holofote de noite e agora o sol desta de “cozinhar”. Dividi a comida na mochila cargueira. Vou fazer tiros de 60 minutos. Costurei um furo nas calças e mochila de ataque, um reforço apenas. Sem previsão para o horário de saída.
   13h 09min. Devo ter saído as 11h da manhã. Em 45 minutos, cheguei nas ruínas do mineradores. Inspecionei o local e visitei o monumento.

[Abaixo as ruínas de um abrigo de mineradores, ande dormi na churrasqueira na primeira noite e no abrigo na segunda noite (depois de reforçar a estrutura com arame e outros itens metálicos).]



   Deve ter sido sofrido para o Benjamin... Tive vontade de chorar... Chorar = desidratação!
   Peguei tudo que dava para por água e saí para o norte. Nenhuma "vega" [agua que brota do chão, formando pequenos córregos], somente a água barrenta do rio Cuevas. 
[A água está na garrafa na esquerda da imagem com água marrom.]














[Rio Cuevas, onde peguei a água.]


Filtrei, bebi, horrível! Até acharem nome pior! Uns 300ml consegui beber. Espero a água decantar um pouco [os sólidos decantarem]. Em 15 minutos sairei para pegar a cargueira. Devido a desidratação devo ficar aqui fazendo água e me alimentar. 
Lembrei que passei por 2 guancos brabos de manhã.
   17h 21min. Estou totalmente instalado nas ruínas dos mineradores. Sim! Vou ficar duas noites aqui. Organizar os alimentos, descansar, hidratar e alimentar. 


[O pôr do sol é diferente. Como o sol se põe a oeste, ele projeta a sombra no acampamento. No entanto, as montanhas a leste ficam iluminadas por ele. veja abaixo:]



[Uma filmagem antes de dormir:]














[Entardecer quase completo:]













Fim dessa parte!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

10ª EXPEDIÇÃO A CORDILHEIRA DOS ANDES (1 de 5 partes) - MENDOZA - ARGENTINA

Esse é o diário de viagem da minha 10ª Expedição a Cordilheira dos Andes na Argentina, na província de Mendoza, na data de 09 de janeiro de 2017 a 24 de janeiro de 2017. 
Foi uma expedição exploratória, onde, poderia não ter trilha ou sinalizações de qual o caminho melhor a ser seguido, com diversas dificuldades. Poderia ter surpresas que no google earth ou nas pesquisas na internet não revelam ou poucas pessoas ali estiveram para relatarem detalhes do terreno, clima, etc.
Reservo-me o direito de não transcrever partes onde aparecem nomes ou fatos que poderiam interferir diretamente na vida de pessoas constantes ou não nessa aventura. Ainda, tentarei reproduzir acertando abreviações e fazendo algumas adequações gramaticais para a melhor leitura e interpretação do leitor, bem como explicações atuais entre colchetes [].

10ª Expedição – objetivo fotos do lado norte do Cerro Aconcagua e cume do cerro Zurbringgen (experiência em gelo/neve).












06-01-17. 
   De manhã. Reviso as costuras da polaina e outros equipamentos têxteis. Estou reduzindo ao máximo o peso do equipamento. Tenho um limite de 30 kg para a bagagem [que irá no porta malas do ônibus] e uns 5 kg para bagagem de mão. Até tirei a capa desse bloco.
09-01-17.
   Que sufoco levar as bagagens para a rodoviária e voltar para casa. Deixar o veículo em casa e retornar a rodoviária. Minha esposa espera lá fora. Tudo conferido. Dá vontade de deixar metade pelo caminho. Dois volumes de 15 kg mais uma bolsa de mão de 5 kg. 19h05min. Que louco! Vou fazer 1/51 do trajeto [um de cinqüenta e um]. 
21h40min: Espero no setor dos “internacionais” [na rodoviária de Porto Alegre]. Na ânsia de não chegar atrasado, cheguei 1,5 horas antes. Minha mala de mão rasgou no zíper [já era uma bem usada, usei bolsas que não chamasse atenção. A mochila estava desmontada dentro de outra bolsa]. 











   
   Dei-me conta de não ter pego o GPS. Eu estava passando dados... Coordenadas e tal. Mas na preocupação de deixar a casa arrumada, etc, devo ter deixado. Tenho carta topográfica e bússola. Lembrei por duas vezes o filme “7 anos no Tibete”. Sei lá... 22h20min: Esperando... (resmungos).
10-01-17. 
07h25min. Ontem chegou o ônibus uns 10 minutos depois do horário, que é normal [ele vem de outras cidades]. A minha bagagem de mão não coube na prateleira acima dos bancos. O motorista fez uma parada para limpar o pára-brisa. Eu fui urinar e a urina saiu amarelada. Troquei mensagens com minha esposa pelo celular e pelo face book. Agora estamos parados em Uruguaiana (Brasil) à pelo menos 15 minutos. 










   Carrego meu celular em um carregador solar. O ônibus está praticamente vazio. Minha bolsa estava desconfortavelmente no meio das minhas pernas e agora está do lado. O ar condicionado marca 25ºC mas está frio, parecendo 19ºC. 
7h40min: Passada a ponte! 
8h30min: Enfim liberados! 
9h00min: Paramos a 20 min para abastecer. Todos desembarcaram. Lavei o rosto. Isso é bom! A gasolina aqui é 19,78 pesos [argentinos, o litro]. 












12h25min: [Estamos em] Federal. Nublado sem chuva. Gastos R$ zero (ops... R$10,00 do carregador [de bagagem] em Caxias do Sul e mais ou menos 34 reais da passagem de Caxias do Sul para Porto Alegre e, 350 reais de Porto Alegre para Córdoba [e 3 reais de taxa de embarque]). Um mosquito dentro do ônibus. E um “grilo”: barulho metálico incessante do ônibus. Mais, máximo 1 folha do diário por dia! 
12h36min: mensagem no telefone celular da operadora Vivo – Consulado +5491141999668 ligação tarifada. 14h55min: paramos em Paraná para embarque e desembarque de passageiros. 
16h15min: Paramos na rodoviária de Santa Fé por 30 min. Passamos pelo túnel hidroviário, 10ª vez... 

   
   Sim! Confirmado o esquecimento do GPS. No lugar óbvio estão os equipamentos como bússola, eletrônicos, frágeis... E em outras da bagagem de mão, não. A 1ª vez que fui aos Andes eu não tinha GPS e estou aqui [referência que esse aparelho não é determinante para o sucesso ou não de uma aventura]. Mastigo uma bala macia. 16h18min: Estamos saindo. O painel solar está no sol, carregando. 

(10-01-17) 
18h15min: Fiquei sem bateria numa câmera, porém o celular está carregado 90%. Não tenho sol direito e o painel demora em carregar. [valores gastos]: $5,00 do carregador + 2 +5 + 743 (de Córdoba para Mendoza) + $10 de internet em Córdoba e $8,00 de telefone em Mendoza. Mais 70 pesos, aproximadamente, de cebola, água e batata frita industrializada. $100,00 maleiro [deixei duas bagagens em um “porta volumes” na rodoviária de Mendoza para eu poder me deslocar melhor]. $91,00 para Las Cuevas.

Nota1: Valores gastos até agora = R$397,00 e $916 (pesos argentinos).

Nota2: Quando eu cheguei ao terminal de ônibus ou rodoviária, eu cheguei a uma e tinha outra. Tive que sair, atravessar uma rua, entrar em outra rodoviária.

11-01-17. Acontecimentos: Ontem eu fui a empresa Andesmar e me venderam uma passagem pela El Rápido. O homem das malas me disse que eram apenas 15 kg, e nas Andesmar viram minha bagagem. Eu nem sabia [que tinha limite de peso na Argentina. Só se for agora.] Fui dar uma gorjeta de 5 pesos e ele achou ruim. Vai sabem... O ônibus necessitava de reparos. Uma saída de ar condicionado estava tampada por um papel pautado e chiclete vermelho nas pontas. O acabamento da janela faltavam pedaços e, nas folgas, chicletes brancos. Quando cheguei, havia farelo de biscoito ou sei lá, na poltrona. A saída foi em outro terminal [explicado em “Nota2” acima]. Saí correndo para o próximo. Uns 300 metros. Cheguei ao pavimento superior. Desci para o guichê Andesmar. Subi para ir ao banheiro. Desci as escadas para ir à internet. Subi de escada rolante. O ônibus era às 22h, horário local. Aí aconteceu do ônibus, ele não parecia funcionar direito. Era 00h30min e trocamos de ônibus. Cadê as malas? = Preocupação. Meu visinho de poltrona tinha cheiro de pão caseiro com suor. Passei um pouco de desodorante liquido em baixo [do meu] nariz. Acordei diversas vezes [durante a noite], e pelas 6h da manhã, não dormi mais. Lá estava, a Cordilheira. Novamente nos vemos. Hoje iremos nos encontrar. Avistei um pico nevado. El Cerro Plata. Imponente. Branco. 
Agora 8h50min, espero fora do terminal, mais ventilado. Comprei cebola, alho, água e salgadinho na av. Alem, uns 300 m da entrada [da rodoviária]. Dois volumes no serviço de porta bagagem por 50 pesos cada. Cem pesos ou 25 reais para defecar em paz e comprar as coisas, valeu a pena! Ônibus agendado as 10h15min para Las Cuevas. Ah! Liguei para o Brasil, pai e esposa, mais 8 pesos. Acho que vou carregar as baterias. Ônibus nas 47 a 49 [Box de parada], perto do guarda volumes. Banheiro meio vazio perto do [Box] 60. Venda de bilhetes perto do guarda volumes. 
8h55min, me vou. 
10h15min dentro do ônibus. Parece que metade é andinistas. Terde para entrar no parque. [a minha sugestão é entrar até as 13 h no parque provincial Aconcagua, pois se tem 4 a 7 h para caminhar até o primeiro acampamento], mas para Penitentes e Puente Del Inca para aclimatar, está ótimo. Estou do lado esquerdo. 










   Pessoas ao meu redor falam inglês e parece italiano, além de espanhol. [a proporção é de 2 estrangeiras para 5 pessoas]. 14h05min. Estou em Puente de Inca esperando. Fiz algumas filmagens. Eu sempre me encanto com essas paisagens. É uma paisagem lunar. Para quem um dia quis ir a Lua... Esse é um meio de baixo custo. 



   Me deu vontade de urinar, mas espero até Las Cuevas. Tem banheiro no ônibus mas não quero enjoar. Banheiro em movimento não é comigo. Parece que subiu um casal de suíços, ou alemães. Agora curtir 12km até “Cuevas”.












11-01-17. 
15h15min. Estou em um refugio de montanha. Escolhi por causada organização dos alimentos e da energia elétrica e, de uma noite de repouso e verificação da saúde. [a intenção inicial era ficar nas ruínas da estação ou cobertos dos trilhos, por causa do valor, mas por 200 pesos fiquei nesse refúgio de montanha].


   




terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Survival kit Andes Mountain Range - Aconcágua - Minimal - Kit minimo de Sobrevivência na Cordilheira dos Andes




      Eu pesquisei sobre os kit na internet para a Cordilheira dos Andes e não encontrei.
      Encontrei diversos para outras regiões, como machado e outros elementos que não tem finalidade nesta Cordilheira.
      Neste caso, dos 3.000 metros aos 3.600 metros aproximadamente, a vegetação se resume a escaços arbustos pequenos de uns 30 cm de altura, com pouco caule e de madeira extremamente densa. E, depois dessa altitude: pedras e farelo de pedras, riachos (depende do trajeto), e neve (e/ou gelo dependendo da altitude e estação do ano).
     Qual é a primeira necessidade humana para esse tipo de situação?  
     HIDRATAÇÃO!

     As expedições são altamente organizadas, com horários rígidos de saída e retorno aos acampamentos ou refúgios.
     Na mochilinha do andinista já encontramos alguns elementos obrigatórios, como a jaqueta impermeável (aconselho impermeável e transpirável), lanterna, canivete, kit primeiros socorros, alimentação, equipamento de orientação, localização e navegação, entre outros.
     A minha preocupação se deu na minha vivência. Retornando do vulcão Maipo - Argentina - nosso veículo ficou atolado na neve. Tivemos que derreter neve para hidratarmos, ali mesmo, na lateral da estrada.
    
    Esse é meu kit, visando  mais a hidratação que a alimentação.

01 embalagem rígida tipo caixa com sistema de fechamento;
01 tripé dobrável;
01 retângulo (30 x 30 cm) de  papel alumínio (duplo) para confecção de "recipiente" servindo fogareiro com combustível sólido e também de protetor de vento;
02 retângulos (30 x 30 cm) de papel alumínio (triplo) para confecção de panela onde irá a neve para ser derretida e ter água liquida;
05 (atualmente) porções de combustível sólido, feito com algodão e cera de vela;
01 vela pequena;
10 iniciadores de fogo (tiras de papel com cera);
15 fósforos;
02 lixas para os fósforos;
01 manta aluminizada;
01 barra de proteína (industrializada);
12 amêndoas "castanha do pará ou castanha do Brasil".
01 caixa plástica para acomodar os itens acima.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Um acontecimento de HAPE High Altitude Pulmonary Edema, por Thomas Schulze, história verídica.

EDEMA PULMONAR DE MONTANHA

            Era minha sexta expedição. Eu estava levando um brasileiro para um 6.000 metros* na Cordilheira dos Andes na Argentina, próximo a cidade de Mendoza.
            Após alguns dias de aclimatação, atingindo pequenos cerros de 3.000 metros de altitude, estávamos no acampamento base “El Salto d’Agua 4.300”. Chegamos no dia anterior e agora, programei pequenos passeios e a oportunidade de apresentar as técnicas de progressão sobre a neve. Escolhi uma “língua de neve” endurecida a 4.500 m para isso.
            Eu, meu cliente, minha ajudante (e esposa), e um casal de argentinos da cidade de Santa Fé, na província de mesmo nome, que conhecemos uns dias antes, acompanhávamos nas práticas das técnicas.
           O casal tinha observado negativamente a atitude de algum guia de montanha da região (não entramos em detalhes) que, caminhavam muito rápido, deixando os clientes para trás ou exaustos. E por isso, a sua pequena equipe (o casal) se juntara a nós.
(*) O Cerro Plata fora remedido e atualmente tem a marca de 5.947 metros de altitude. Muitos sites, inclusive alguns famosos mantêm as antigas marcas de 6.300, 6.100 e 6.000 metros de altitude.
            Subíamos e descíamos observando as técnicas de deslocamento com os grampons* e piolets**. Minha ajudante ficara na trilha em um ponto mais elevado fotografando nossa atividade. Derrepente ela me chamou e pude observar uma silueta humana com uma mochila enorme, ao seu lado. Fomos ao seu encontro. Era homem. Aparentava uns 30 anos. E seu rosto estava desfigurado pelo frio e pelo cansaço. Seu lábio estava rachado com sangue coagulado, sua face com queimaduras ocasionadas pelo sol ou pelo frio. Dividimos o equipamento dele em nossas mochilas. Ele, escoltado por nós, aos tropeços, chegou ao acampamento base. Montamos sua barraca e pode descansar. O casal de argentinos que nos acompanhava era composto por um médico (clinico geral) e uma advogada.
(*) Grampons é uma plataforma metálica de aço (existe de liga de alumínio) presa na bota por meio de alavanca ou correias, com pontas afiadas para baixo, fazendo com que se possa caminhar sobre neve dura ou gelo escorregadio sem deslizar e ocasionar um incidente ou acidente (alguns acidentes podem levar a óbito).
(**) Piolet é uma espécie de picareta leve feita de aço ou liga de alumínio com uma ponta em curva de um lado e uma “enxada” pequena do outro com um cabo comprido (antigamente de madeira e atualmente de liga de alumínio ou fibra de carbono), própria para deslocamento sobre neve ou gelo (inclinados). Também é chamado de machado para gelo, pois as primeiras ferramentas para isso eram de cortar o gelo para fazer degraus. Atualmente com o uso combinado de piolet de marcha e grampons, servem para auxiliar o deslocamento (para cima, para baixo ou lateralmente) e para travamento em caso de queda do alpinista. 
            O médico pediu meu estetoscópio emprestado, pois era o único no acampamento inteiro. Outras expedições com “guias” especializados, não tinham esse equipamento simples e de baixo valor. Foi constatado HAPE – Edema Pulmonar de Alta Altitude. O médico, apesar de não ter especialização em doenças relacionadas com altitude, começou a ficar preocupado. O casal, após uma longa conversa particular em sua barraca, sobre responsabilidades legais, decidiu abandonar sua expedição e acompanhar o andinista moribundo montanha abaixo. 
            Emprestamos uma mochila de ataque e revisamos os itens principais como lanterna, água e comida. O edemado levantou-se com dificuldade e, cambaleando acompanhou a dupla de jovens andinistas, que, já na sua primeira expedição já desenvolvia o espírito de solidariedade de montanha. Onde a vida é prioridade.
            Esse trajeto, do acampamento base para os primeiros grupos de casas (refúgios e hospedagens) lá embaixo a 2.800 metros de altitude, pode ser feito em 4 horas. Esse percurso, subindo e respeitando a aclimatação, é vencido em alguns dias, de 3 ou 4. Eu em um processo de aclimatação, já fizera em 10 horas, de 2.800 a 4.300 (acampamento base) e voltando a 2.800, para o refugio onde estava instalado.
            O trio deixou o acampamento de tarde pelas 15 horas. Desceram o sinuoso e abrupto acesso a esse acampamento, percorrendo, também, a trilha sobre um filo estreito com quedas de 3 a 5 metros de altura em ambos lados. “El Infernillo” é o seu   nome. Esse percurso foi assim batizado, pois no inverno, com neve e ventos fortíssimos o andinista é empurrado para esses mini abismos.
Ao longe acompanhávamos as três “formiguinhas” em uma trilha cinza clara sinuosa. Cada vez menores, como 3 pontinhos, desaparecendo no meio dos desníveis do terreno.
            Sabemos, após alguns dias que eles demoraram 8 horas para, com segurança, levar o enfermo debilitado pela hipóxia (que parava freqüentemente), a civilização e com isso para auxilio médico especializado.
Nós retornamos ao cronograma da expedição, no mesmo dia em que tudo isso aconteceu.

Fim desse episódio.